Antes de chegar à urna, a política já está presente na vida de quem mora na favela. Está na rua que precisa de urbanização, no transporte utilizado para chegar ao trabalho, no acesso à moradia digna, ao saneamento, à educação, à saúde, à cultura e às oportunidades.
No estado do Rio de Janeiro, essa discussão alcança uma parcela expressiva da população. Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o território fluminense possui 1.724 favelas e comunidades urbanas, o segundo maior número entre os estados brasileiros. Na grande concentração urbana do Rio de Janeiro, 1,7 milhão de pessoas vivem nesses territórios.
Em ano eleitoral, essas questões ganham ainda mais importância. Afinal, as escolhas feitas nas urnas ajudam a definir quem será responsável por formular, executar, financiar e fiscalizar políticas públicas que impactam diretamente a rotina de milhões de pessoas.
No dia 4 de outubro, os eleitores escolherão presidente da República, governador, dois senadores, deputados federais e deputados estaduais. Diferentemente das eleições municipais, quando são escolhidos prefeitos e vereadores, o pleito deste ano coloca em disputa os governos federal e estadual e a composição do Congresso Nacional e das assembleias legislativas.
Essa divisão importa porque as demandas das favelas atravessam diferentes níveis de governo. O governador é responsável pela execução de políticas estaduais em áreas como segurança pública, saúde e educação. Deputados estaduais elaboram leis e fiscalizam o governo estadual, enquanto deputados federais e senadores participam da elaboração de leis, da definição de orçamentos e da fiscalização no âmbito federal. O presidente, por sua vez, conduz políticas e programas nacionais que também podem chegar aos territórios por meio de investimentos e parcerias com estados e municípios.
Discutir eleições a partir das favelas significa ampliar o debate para além dos períodos de campanha e perguntar: quais são as prioridades de quem vive nesses territórios e de que forma essas demandas chegam às decisões políticas?
Favela também produz soluções
Para o arquiteto e urbanista Fernando Pereira, cria do Morro da Providência, reconhecido historicamente como a primeira favela do Brasil, essa discussão passa pelo reconhecimento das favelas como territórios que também produzem conhecimento, soluções urbanas e novas formas de pensar a cidade.
Fundador do Instituto Arquitetos da Favela e idealizador do Seminário Arquitetura da Favela, Fernando atua na defesa de uma arquitetura conectada à realidade dos territórios populares. Sua trajetória também evidencia a importância de ampliar o acesso de profissionais das periferias a espaços de decisão, conhecimento e desenvolvimento.
Há pouco tempo, mesmo com formação acadêmica e especializações, Fernando dividia a rotina entre entrevistas de emprego e a venda de balas nas ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Hoje, sua atuação busca transformar a relação entre arquitetura, urbanismo e territórios populares.
A proposta defendida por ele é justamente mudar a maneira como a favela é observada: não apenas como território de carências, mas também como espaço de criatividade, conhecimento, empreendedorismo, identidade e produção de soluções.
“Não estou aqui apenas por mim. Estou representando milhares de jovens das periferias brasileiras que possuem talento, capacidade e sonhos, mas que muitas vezes não têm acesso às mesmas oportunidades. A favela tem arquitetos, urbanistas, empreendedores, pesquisadores e líderes. Precisamos apenas abrir as portas para que essas histórias sejam conhecidas”, afirma Fernando Pereira.
Essa perspectiva também ajuda a ampliar o debate eleitoral. Se as favelas são diretamente impactadas pelas políticas públicas, seus moradores e profissionais também precisam participar das discussões sobre quais soluções serão adotadas para esses territórios.
O voto visto de dentro do território
A discussão também pode ser observada pela perspectiva de quem vive diariamente na favela.
Aos 30 anos, Samuel Augusto, morador do Chapadão e trabalhador contratado pelo regime CLT, conhece de perto a relação entre as decisões públicas e o cotidiano de quem precisa sair de casa todos os dias para trabalhar e sustentar a própria vida.
Para ele, o debate eleitoral precisa ultrapassar os discursos de campanha e chegar às necessidades concretas dos moradores.
“A gente percebe a política no nosso dia a dia. Está no transporte, nas condições das ruas, na segurança, no acesso aos serviços e nas oportunidades. Quando a gente vota, não está escolhendo só uma pessoa. Está escolhendo quem vai tomar decisões que vão afetar diretamente a nossa vida.”
A fala de Samuel ajuda a dimensionar o significado da participação política nos territórios populares. Para quem vive nas favelas, democracia não se resume ao direito de votar. Também envolve ser ouvido, participar da construção das políticas públicas e acompanhar a atuação dos representantes eleitos.
É nesse ponto que o debate sobre favela se conecta diretamente às eleições.
Políticas de urbanização, habitação, saneamento, mobilidade, educação, cultura, geração de renda e segurança não são temas abstratos para os moradores. São questões que interferem diariamente na possibilidade de trabalhar, estudar, circular e viver com dignidade.
Ao mesmo tempo, experiências como a de Fernando Pereira mostram que os próprios territórios podem produzir profissionais e propostas capazes de contribuir para a formulação dessas políticas.
Da promessa eleitoral à política pública
Em períodos eleitorais, candidatos voltam suas atenções para diferentes territórios em busca de votos. Para quem vive nas favelas, no entanto, o desafio é fazer com que as demandas apresentadas durante as campanhas se transformem em políticas públicas capazes de permanecer depois das eleições.
Por isso, acompanhar propostas, compreender as atribuições dos cargos em disputa e fiscalizar quem for eleito também fazem parte da participação política.
Em 2026, não estarão em disputa os cargos de prefeito e vereador, mas decisões tomadas pelo próximo governador, pelo presidente e pelos parlamentares eleitos poderão interferir na destinação de recursos, na elaboração de leis e na execução ou fiscalização de políticas que chegam às favelas.
A pergunta, portanto, deixa de ser apenas “quem vai vencer a eleição?” e passa a ser: “quais demandas das favelas estarão presentes nas decisões tomadas depois que as urnas forem fechadas?”.
Para moradores como Samuel e profissionais como Fernando, aproximar a política da favela significa reconhecer que esses territórios não podem aparecer apenas durante as campanhas eleitorais.
O voto acontece em um dia. As decisões tomadas a partir dele podem produzir efeitos durante anos. Para quem vive diariamente os problemas e as potencialidades das favelas, participar das eleições também significa disputar quais políticas públicas serão prioridade no Rio de Janeiro a partir de 2027.
** Este conteúdo foi produzido com apoio do Programa Orire de Apoio às Mídias Independentes 2026, iniciativa do Instituto Orire voltada ao fortalecimento do jornalismo independente e da produção de informação de interesse público.
