Na ilha de Fernando de Noronha, a professora Rayane Dixie dos Santos, de 31 anos, vivia uma situação complicada com seu filho neurodivergente.
A mãe solo de uma criança com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) de suporte 2 e com o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), lidava com intensas crises de agitação e agressividade de seu filho.
Além do cuidado com a criança atípica, Rayane precisava dividir sua atenção com o outro filho e o emprego. Com tamanha demanda, a professora logo percebeu que estava adoecendo:
“Eu sou a única que cuida dele. A rotina pesada de mãe atípica me levou a um quadro de ansiedade generalizada e problemas com sono”, contou Rayane.
Há cerca de três meses, em março, o filho de Rayane iniciou um tratamento à base de canabidiol (CBD) – composto natural extraído da cannabis – e apresentou mudanças positivas de comportamento, com a diminuição das crises.
O tratamento com canabidiol foi viabilizado pelo Projeto Noronha, uma iniciativa conjunta entre a Associação Brasileira de Estudos dos Canabinóides (Abecmed), a Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha (AMA-FN) e a Administração Distrital da ilha.
Em fevereiro e maio deste ano, o projeto realizou dois mutirões, com o objetivo de promover uma opção de tratamento integrativo e gerar conhecimento sobre o tema. O movimento realizou, de forma gratuita, 126 consultas médicas e distribuiu 221 óleos de canabidiol.
Agora, a iniciativa viabiliza a construção de uma futura sede em um terreno cedido pela Administração da ilha. Com o novo espaço, as famílias neuroatípicas poderão receber acompanhamento, orientação e acolhimento de maneira integral.
“A maior parte dos mutirões de saúde realizados no Brasil acontece uma única vez. A equipe atende a população e depois vai embora. Em Noronha, estamos construindo algo diferente. Já voltamos à ilha uma segunda vez, retornaremos a cada três meses e agora estamos ajudando a estruturar uma rede permanente de suporte para essas famílias”, afirma Alexandre Assis, diretor da Abecmed.
Outro aspecto do projeto é a atenção para as mães das crianças atípicas, que constantemente são as únicas que desempenham o papel de cuidado integral dos filhos.
Ladislau Porto, um dos idealizadores da iniciativa, diz que o projeto pensou também no atendimento às mulheres com filhos atípicos: “Quando a criança está em crise, ela tem a mãe. Quando a mãe está em crise, ela não tem ninguém”. Em razão disso, o programa oferece atendimento e acompanhamento às mulheres.
Uma das mães atendidas pelo programa é Rebeca Allen, presidente da associação de mães do arquipélago. Rebeca tem um filho de sete anos com TDAH e Transtorno do Processamento Sensorial. Ela desenvolveu depressão e Transtorno de Ansiedade Generalizada por causa da sobrecarga do cuidado maternal.
“Eu comecei a sentir os sinais em torno de 2023, quando estava em busca de ajuda para o meu filho. Comecei a esquecer das coisas, ter falta de ar e pontadas no coração. Mas eu pensava ‘meu Deus, eu sou o contato de emergência do meu filho, eu preciso me cuidar’”.
Ela foi atrás de atendimento médico e começou a tomar remédios para dormir, porém os sintomas não melhoraram. Com a introdução do canabidiol, em fevereiro deste ano, Rebeca notou melhora no controle da ansiedade e na qualidade do sono, com mais foco e organizada.
O filho de Rebeca também começou um tratamento com o CBD em fevereiro. Ela notou que ele apresentou redução significativa na agressividade e maior colaboração na terapia e na escola.