“Cria” é uma expressão que carrega mais do que a indicação de onde alguém nasceu. Nas favelas e periferias do Rio de Janeiro, o termo também está relacionado a pertencimento, memória, identidade e às experiências construídas no território.
É assim que a deputada estadual Renata Souza (PSOL) se apresenta: cria da Maré.
Nascida e criada no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, Renata construiu uma trajetória que passou pela universidade, pelo jornalismo, pela pesquisa, pela literatura e chegou à política institucional. Formada em Jornalismo pela PUC-Rio, é mestre e doutora em Comunicação e Cultura e também desenvolveu estudos de pós-doutorado. A trajetória acadêmica está diretamente relacionada às questões sociais presentes no território onde cresceu.
Para Renata, parte dos desafios enfrentados por meninas e mulheres das periferias está justamente na dificuldade de construir perspectivas de futuro quando necessidades imediatas ocupam o centro da vida.
“As meninas e mulheres dos territórios mais populares muitas vezes têm a dimensão do sonho trocada pela sobrevivência real, e isso anula a formação de potências”, afirma.
A deputada também relaciona o reconhecimento da identidade às histórias familiares e aos territórios: “O desafio e a potência que eu vejo dessa juventude, além de se reconhecer enquanto meninas negras, é traduzir a sua identidade. Isso é muito bacana, pois demonstra que as histórias das suas matriarcas, das favelas e periferias também têm assumido um novo lugar, de reconhecimento. Esses pontos transformam essas meninas em potências engajadas em reconhecer a negritude e transformar suas realidades”, acrescenta.
Educação como possibilidade de novos caminhos
Antes de ingressar na universidade, Renata passou três anos em um pré-vestibular comunitário. Depois, conseguiu uma bolsa integral para cursar Jornalismo na PUC-Rio. Mais tarde, avançou na trajetória acadêmica até o mestrado, doutorado e pós-doutorado. A Alerj registra que ela foi a primeira pessoa de sua família a ingressar no ensino superior.
Para a deputada, o incentivo da família foi determinante para sua formação.
“É a partir da educação que a mobilidade social ganha a possibilidade de existir. Então, a educação fez total diferença na minha vida. Minha mãe e meu pai sempre disseram que o que eles poderiam me garantir era educação, e assim foi. Eles batalharam muito para que eu tivesse os livros, especialmente quando você chega ao segundo grau, em que são caríssimos. Eles deram tudo de si para que eu e meus irmãos pudéssemos estudar”, relata.
A dificuldade de conciliar educação e necessidade de renda, mencionada por Renata, ainda faz parte da realidade de uma parcela da juventude brasileira.
Dados do IBGE referentes a 2024 mostram que, entre jovens de 15 a 29 anos que não estudavam e não haviam concluído o ensino médio, 61,2% dos homens apontaram a necessidade de trabalhar como principal motivo para não frequentar a escola. Entre as mulheres, gravidez e responsabilidades com afazeres domésticos e cuidados, somadas, foram a principal razão para 38,2%, superando a necessidade de trabalhar, citada por 28,2% delas.
Para Renata, políticas de permanência estudantil podem contribuir para reduzir o impacto das dificuldades econômicas sobre a trajetória educacional. Ela cita como exemplo o Pé-de-Meia, programa federal de incentivo financeiro destinado a estudantes do ensino médio público que atendem aos critérios estabelecidos pela política.
“Hoje eu vejo novas oportunidades que eu não tive. O Pé-de-Meia, por exemplo, é um programa que garante um recurso para esses estudantes que estão terminando o segundo grau”, afirma.
A formação iniciada no pré-vestibular comunitário levou Renata à graduação em Jornalismo e, posteriormente, à pesquisa acadêmica. Em 2017, ela defendeu na UFRJ a tese de doutorado O Comum e a Rua: resistência da juventude frente à militarização da vida na Maré, dedicada à relação entre juventude, território, comunicação e segurança pública: “A educação tem esse poder de fazer os nossos jovens sonharem com um futuro melhor”, afirma.
Da pesquisa à literatura
A escrita se tornou outro eixo da trajetória profissional e intelectual de Renata. Parte dessa produção reúne experiências, pesquisas e reflexões sobre favela, raça, gênero, política e direitos humanos.
“A possibilidade de escrever livros veio muito desse caminho da educação. Escrever as minhas vivências, as minhas sensações e observações é um caminho sem volta. Porque, quando você começa a expressar as suas indignações, mas também os sonhos, é uma grande liberdade. Eu sempre fui muito tolhida diante do que era o não lugar de uma menina negra na favela”, relata.
Entre suas publicações estão Diálogos sobre gênero, raça e classe no Brasil; Ubuntu: negras utopias; Cria da favela: resistência à militarização da vida; e Cabeça erguida: preta, favelada e feminista na política.
A produção sobre violência política também integra essa trajetória. Em 2020, Renata publicou o artigo acadêmico Feminicídio Político: um estudo sobre a vida e a morte de Marielles, no qual desenvolve uma reflexão sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco e a violência dirigida às mulheres na política.
O tema voltou a aparecer em sua produção em 2026, desta vez em uma obra coletiva. Renata é uma das organizadoras do livro Feminicídio Político, ao lado de Lilian Angélica Souza e Isabela Amaral. Publicado pela Dandara Editora, o livro tem 294 páginas e reúne pesquisadoras e profissionais de diferentes áreas para discutir violência política a partir de dimensões como gênero, raça e território.
A relação entre escrita e experiência pessoal, segundo Renata, também passa pela possibilidade de registrar memórias e construir outras narrativas sobre os territórios populares.
Da Maré à política institucional
Antes de chegar à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Renata atuou em movimentos sociais e na defesa dos direitos humanos e foi chefe de gabinete da vereadora Marielle Franco na Câmara Municipal do Rio.
Em 2018, foi eleita deputada estadual pela primeira vez, com 63.937 votos. Quatro anos depois, foi reeleita com 174.132 votos.
O resultado de 2022 colocou Renata como a terceira pessoa mais votada para a Alerj naquele pleito. Atualmente, Renata preside a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Alerj. Sua atuação parlamentar mantém entre os principais temas questões relacionadas aos direitos humanos, às mulheres, à população negra e às favelas.
A passagem da Maré para espaços como a universidade e a Assembleia Legislativa não eliminou a presença do território em sua trajetória. Ao contrário, experiências relacionadas à favela aparecem em sua produção acadêmica, nos livros e na atuação política.
Para Renata, leitura e escrita também foram instrumentos para ampliar as possibilidades que enxergava para a própria vida: “Criar asas para voos que você talvez nem imaginasse serem possíveis. Para mim, a leitura e a escrita são elementos fundamentais da minha construção enquanto sujeito político. É por meio delas que amplio repertórios, questiono o mundo, compreendo minha própria trajetória e encontro caminhos para transformar aquilo que vivo em pensamento, expressão e ação”, afirma.
A trajetória que começou na Maré e chegou à universidade, à literatura e à política institucional mostra como território e mobilidade não precisam ocupar posições opostas. No percurso de Renata Souza, a origem permanece como referência para a produção intelectual, profissional e política construída ao longo dos anos.
** Este conteúdo foi produzido com apoio do Programa Orire de Apoio às Mídias Independentes 2026, iniciativa do Instituto Orire voltada ao fortalecimento do jornalismo independente e da produção de informação de interesse público.
FIM
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Do território para o mundo: a potência de ser cria
Nascida na Favela da Maré, a Deputada Estadual Renata Souza rompeu os limites da comunidade às margens da Avenida Brasil, se formou em jornalismo pela PUC Rio, escreveu seus livros e foi a mulher negra mais votada para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro nas eleições de 2022.
Cria é quem carrega no corpo, na memória e na trajetória as experiências do território onde cresceu. É quem transforma pertencimento em identidade, repertório e potência para criar novos caminhos.
Uma coisa que nós, do coletivo Somos Os Crias, temos em comum com Renata Souza é justamente essa compreensão: território também é identidade, memória, afeto e potência.
“As meninas e mulheres dos territórios mais populares muitas vezes a dimensão do sonho é trocada pela sobrevivência real e isso anula a formação de potências”, ressalta Renata Souza. E completa: “O desafio e potência que eu vejo dessa juventude além de se reconhecerem enquanto meninas negras é traduzir a sua identidade. Isso é muito bacana, pois demonstra que as histórias das suas matriarcas, das favelas e periferias também têm assumido um novo lugar num alto reconhecimento. Esses pontos transformam essas meninas em potências engajadas em reconhecer a negritude e transformar suas realidades”.
Ser cria é carregar histórias. É lembrar das pessoas, das ruas, das dificuldades e das alegrias que ajudaram a formar quem somos. É transformar aquilo que vivemos, em coragem para sonhar, criar e ocupar espaços que, muitas vezes, pareciam distantes. Vivências que levaram essa cria a tomar suas escrevivências e lançar seis livros. “A possibilidade de escrever livros veio muito desse caminho da educação. Então escrever as minhas vivências, as minhas sensações e observações, é um caminho sem volta. Porque quando você começa a expressar as suas indignações, mas também os sonhos é uma grande liberdade .Eu sempre fui muito tolhida diante do que era o não lugar de uma menina negra na favela”, reflete, a deputada.
Renata também mostra que escrever pode ser uma maneira de preservar memórias, compartilhar experiências e imaginar futuros possíveis. Seu último livro, ‘Feminicídio Político: um estudo sobre a vida e a morte de Marielles’, de 2026. A obra reúne em 15 capítulos, textos de pesquisadoras de diferentes áreas para discutir a violência política contra mulheres, especialmente mulheres negras, e como essa violência opera pelo silenciamento, exclusão, deslegitimação e, em sua forma extrema, eliminação de mulheres que ocupam espaços de poder.
Ranata ainda é autora/ organizadora dos livros ‘Diálogos sobre gênero, raça e classe’, 2019; ‘Ubuntu: negras utopias’, 2020; ‘Cria da favela: resistência à militarização da vida’, 2020; ‘Cabeça erguida: preta, favelada e feminista na política’, 2022; ‘Pedagogia do axé: saberes, lutas e resistência dos povos de terreiro’, 2024; e ‘Negra, sou!’, 2025.
A trajetória que traduz força.
Cria da Maré, jornalista, doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ, escritora e deputada estadual, Renata construiu uma caminhada que ultrapassa os limites do lugar onde nasceu. Mas sem jamais deixar sua origem para trás. Pelo contrário, a Maré está sempre com ela.
Renata carrega suas memórias para o jornalismo, para a pesquisa, para os livros, para a política e para a defesa dos direitos humanos. Levou também a alegria de quem sabe que cada conquista carrega um pouco de quem veio antes e pode representar um novo caminho para quem ainda está chegando.
A educação á um ponto chave para os moradores das favelas e periferias. “É a partir da educação que a mobilidade social ganha a possibilidade de existir. Então educação fez total diferença na minha vida. Minha minha mãe e meu pai sempre disseram que o que eles poderiam me garantir era educação e assim foi. Eles batalharam muito pra que eu tivesse os livros que em especial quando você chega no segundo grau, em que são caríssimos. Eles deram tudo de si para que eu e meus irmãos pudéssemos estudar”, afirma.
Uma outra realidade dos crias é estudar ter que trabalhar, um ponto muito desafiador e que muitas das vezes leva a desistência da educação. Segundo dados do IBGE, de 2024, jovens de 15 a 29 anos interromperam os estudos antes de concluir o ensino médio, a necessidade de trabalhar foi o principal motivo entre os homens: 61,2%. “Hoje eu vejo novas oportunidades, que eu não tive, o ‘Pé de Meia’, por exemplo, um programa do governo Lula que é incrível porque garante um recurso para esses estudantes que estão terminando o segundo grau”, exemplifica.
Um sentimento que desde sempre esteve dentro da Renata foi a capacidade de sonhar, por isso foi estudar jornalismo, na PUC Rio, depois de três anos no pré-vestibular comunitário. A deputada conseguiu chegar no mestrado e no doutorado e no pós-doutorado, sendo a primeira da minha família a chegar nesses lugares. “A educação tem esse poder de fazer os nossos jovens sonharem com um futuro melhor”, afirma.
O voo da cria
Em 2022, Renata fez história ao ser reeleita deputada estadual com 174.132 votos, tornando se a mulher mais votada da história da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Hoje, preside a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. Mas antes dos números, dos cargos e dos espaços de poder, existe uma história, a de uma mulher negra e feminista que, há mais de 20 anos, atua na defesa dos direitos humanos; que foi chefe de gabinete de Marielle Franco; que transformou sua experiência em conhecimento e que também encontrou na literatura uma forma de contar, registrar e provocar novas reflexões.
É por isso que falar sobre Renata é falar sobre mulheres, educação, carreira, representatividade, coragem e oportunidades. Mas é também falar sobre alegria, sobre a
felicidade de conquistar espaços sem perder a essência. Sobre olhar para trás e a menina que é cria da Maré se tornou uma mulher que hoje ocupa espaços de decisão.
Porque ser cria não é esquecer de onde veio quando chega longe. É chegar longe levando sua história junto. E, quando uma cria ocupa um novo espaço, ela pode transformar aquela conquista em uma porta aberta para muitas outras. É essa força que conecta Renata Souza ao Somos Os Crias: a certeza de que território não é limite. É raiz. É memória. É identidade. E também pode ser o começo de novos caminhos. “Criar asas para voos que você talvez nem imaginasse serem possíveis. Para mim, a leitura e a escrita são elementos fundamentais da minha construção enquanto sujeito político. É por meio delas que amplio repertórios, questiono o mundo, compreendo minha própria trajetória e encontro caminhos para transformar aquilo que vivo em pensamento, expressão e ação”, finaliza.
