Com mais de 10 anos de atuação direta na proteção de crianças e adolescentes em territórios populares, Luana Santana é hoje uma das vozes mais ativas quando o assunto é violência sexual infantil. No episódio de estreia da série Vozes pela Infância, hoje sexta-feira (09/05), ela relembra o caso Araceli e reforça por que é essencial falar sobre esse tema. Nesta entrevista, Luana compartilha reflexões, vivências e um chamado à ação.
Cria do Rio: Maio Laranja é uma campanha nacional importante, mas ainda pouco conhecida por muita gente. Como você explicaria esse movimento para quem nunca ouviu falar?
Luana Santana: O Maio Laranja é um grito de socorro. É uma campanha para lembrar o Brasil e o mundo de que o abuso e a exploração sexual contra crianças e adolescentes são reais, graves e muito mais comuns do que se imagina. E tem uma origem muito dolorosa: o assassinato da menina Araceli, em 1973. Ela tinha 8 anos, foi sequestrada, drogada, violentada e morta. O caso chocou o país, mas até hoje está impune. Araceli virou símbolo. Maio Laranja é a nossa forma de dizer que nenhuma criança pode ser esquecida como ela foi.

Cria do Rio: No episódio de estreia, você fala bastante sobre o silêncio. Por que ele é tão perigoso nesse contexto?
Luana Santana: Porque o silêncio protege o agressor. Muitas, o abuso acontece dentro de casa, com alguém próximo, alguém de confiança da família. A criança não entende, não sabe se pode falar, muitas vezes sente culpa ou medo. E aí vem o silêncio. A sociedade também silencia, finge que não vê, minimiza. E esse silêncio é o que mantém a violência acontecendo. Falar sobre abuso é proteger. É romper o ciclo. É dar nome às coisas e, com isso, dar ferramentas para que a gente possa agir.
Cria do Rio: Você atua nas favelas do Rio há anos. O que muda quando a gente olha para essa realidade dentro desses territórios?
Luana Santana: Muda muita coisa. A violência sexual é um problema em todos os lugares, mas nas favelas a situação é ainda mais grave por causa da falta de acesso à informação, à rede de proteção, à denúncia. Às vezes, a pessoa nem sabe o que é um conselho tutelar, nem que existe o Disque 100. Fora isso, tem o medo: medo da exposição, medo da represália, medo de ninguém acreditar. O nosso trabalho é justamente furar essa bolha. Mostrar que existe acolhimento, que a criança não está sozinha, que o Estado pode e deve estar presente.
Cria do Rio: Você acredita que é possível prevenir o abuso?
Luana Santana: Com certeza. E a prevenção começa na conversa. A criança precisa saber desde cedo que tem direito ao seu corpo, que pode dizer “não”, que pode contar se algo a incomodar. E os adultos precisam saber ouvir, precisam observar sinais. Uma criança que muda de comportamento do nada fica agressiva, triste, apática, assustada está tentando dizer alguma coisa. O problema é que muitos adultos ainda acham que é “manha”, que vai passar. Não. Pode ser um pedido de socorro. E quanto mais informação circular, mais proteção a gente constrói.
Cria do Rio: Qual é o seu principal recado neste primeiro episódio?
Luana Santana: Que ninguém se cale. Que a gente fale sobre isso em casa, nas escolas, nos espaços públicos. E que, principalmente, a gente escute as crianças. Porque muitas vezes elas falam não com palavras, mas com atitudes, com medo, com silêncio. Nosso papel é decifrar esses sinais e acolher com amor e responsabilidade. Proteger a infância é dever de todos nós. Não é um favor. É lei. E é urgente.

Cria do Rio: O que esperar dos próximos episódios?
Luana Santana: A gente ainda vai falar de dados e são dados que chocam. Vamos falar sobre sinais, sobre como identificar quando uma criança pode estar sofrendo abuso. E vamos mostrar como denunciar, como funciona o conselho tutelar, o Disque 100… Tudo isso de forma clara, sem juridiquês, pra chegar em todo mundo. Porque a proteção da infância começa com informação.
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