No alto do Morro do Santo Amaro, na região central do Rio de Janeiro, uma iniciativa vem chamando atenção por inverter a lógica tradicional da arquitetura e do urbanismo. Em vez de soluções padronizadas e projetos prontos, o arquiteto e urbanista Fernando Pereira, cria do Morro da Providência, aposta na escuta como ponto de partida para transformar realidades historicamente invisibilizadas.
À frente do Instituto Arquitetos da Favela, Fernando lidera ações que buscam garantir o acesso à moradia digna em territórios negligenciados pelo poder público. Mais do que construir ou reformar casas, o trabalho propõe uma mudança de paradigma: colocar o morador no centro do processo.
Um dos exemplos mais recentes é o projeto desenvolvido para a casa de Dona Tereza, moradora do Morro do Santo Amaro há mais de 40 anos. Durante esse período, ela viveu em condições extremamente precárias: um banheiro de cerca de 2m², sem ventilação ou iluminação natural, ambientes com mofo, umidade constante, estrutura comprometida e uma cozinha improvisada dentro de um dos quartos.
A situação revela o nível da desigualdade enfrentada diariamente: Dona Tereza nunca teve acesso a um banho quente ao longo de quatro décadas.
Diante desse cenário, o projeto não começou com planta baixa, mas com escuta. “O projeto não pode chegar pronto, principalmente quando se trata de moradia. É preciso entender quem vive ali, suas histórias, seus desejos e suas necessidades reais”, afirma Fernando.
Foi nesse processo que surgiu um dos elementos mais simbólicos da proposta: a varanda. Ao apresentar a ideia, o arquiteto presenciou a reação de Dona Tereza um brilho nos olhos seguido de um pedido simples, mas carregado de significado: ela queria uma rede.
O detalhe, aparentemente pequeno, revela muito. Em contextos onde o espaço muitas vezes não permite sequer o descanso, a possibilidade de deitar em uma rede representa mais do que conforto representa dignidade, pertencimento e o direito de existir com qualidade.
A atuação do Instituto Arquitetos da Favela se insere em um debate mais amplo sobre o direito à cidade e à moradia adequada. Em um país marcado por desigualdades estruturais, iniciativas como essa são fundamentais para enfrentar o déficit habitacional qualitativo, especialmente em favelas e periferias, onde a autoconstrução, embora resistente e criativa, muitas vezes ocorre sem suporte técnico e em condições insalubres.
Ao unir conhecimento técnico, vivência territorial e compromisso social, Fernando Pereira constrói mais do que projetos arquitetônicos constrói pontes entre o que existe e o que deveria ser garantido a todos.
“Não é sobre luxo. É sobre o básico. Sobre garantir que as pessoas tenham um espaço que proteja, acolha e permita viver com dignidade”, reforça.
Em um país onde milhões ainda vivem sem acesso a condições mínimas de habitação, iniciativas como a do Instituto Arquitetos da Favela mostram que transformar espaços é, acima de tudo, transformar vidas.
