Jardim Vera Cruz – São Paulo (Foto: Flavinha Lopes)
Em ano eleitoral, a política costuma ganhar espaço nos debates, nas redes sociais e nas campanhas. Mas, para quem vive nos diferentes territórios do Rio de Janeiro, ela está presente muito antes e muito depois do momento do voto.
A política aparece na escola, no transporte público, nos postos de saúde, nas oportunidades de trabalho, na segurança, na moradia e na qualidade dos serviços oferecidos à população.
Em 2026, o Rio de Janeiro tem 12,8 milhões de eleitores aptos a votar, o terceiro maior eleitorado estadual do país, atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais. No dia 4 de outubro, esses eleitores poderão escolher presidente da República, governador, dois senadores, deputados federais e deputados estaduais.
A partir de quatro experiências distintas, moradores de diferentes regiões do Rio ajudam a colocar uma questão no centro do debate eleitoral: como transformar o voto em participação política efetiva?
Morador da Maré e advogado, Daniel Wick observa essa relação a partir do direito e da própria experiência territorial. Para ele, conhecer os mecanismos de participação e os próprios direitos é fundamental para que o cidadão não seja apenas eleitor, mas também acompanhe e fiscalize os representantes escolhidos.
“A política não começa e termina na urna. O cidadão precisa entender que também tem o direito de acompanhar, fiscalizar e cobrar quem foi eleito. Quando a população conhece seus direitos e participa das decisões, a democracia deixa de ser apenas um discurso e passa a fazer parte da vida cotidiana”, afirma Daniel.
Em Jacarepaguá, Luana Rayane, mãe, moradora da região e ativista, chama atenção para outra dimensão da participação: quem consegue chegar aos espaços onde as decisões são tomadas.
Para ela, discutir política também significa falar sobre a rotina de mães, mulheres e trabalhadores que muitas vezes enfrentam dificuldades para participar dos debates públicos.
“Quando a gente fala de política, precisa lembrar das pessoas que acordam cedo, trabalham, cuidam dos filhos e enfrentam todos os dias os problemas da cidade. A política precisa ouvir essas pessoas. A mãe, a trabalhadora e a moradora também precisam estar nos espaços onde as decisões são tomadas”, afirma Luana.
A discussão sobre quem ocupa esses espaços também aparece na trajetória de pessoas que saíram dos territórios populares e chegaram ao Parlamento. Cria da Maré, a jornalista Renata Souza (PSOL-RJ) é deputada estadual e construiu sua trajetória política a partir da atuação em direitos humanos, favelas e periferias.
Em entrevista à Agência Lupa, Renata falou sobre a presença de mulheres negras nos espaços institucionais de poder e sobre as barreiras encontradas para ocupar lugares dos quais historicamente estiveram afastadas.
“Os desafios são enormes, mas quanto mais mulheres e mulheres pretas engajadas na luta política, melhor. Esse lugar que historicamente foi negado para a gente vai ter que entender que nós precisamos estar”, afirmou a deputada.
A trajetória de Renata acrescenta uma dimensão concreta ao debate levantado por Luana. A discussão sobre participação não envolve apenas ser ouvido pelo poder público, mas também quem consegue ocupar os espaços onde leis, orçamentos e políticas públicas são discutidos e decididos.
A juventude aparece nessa discussão por meio de Pedro Friaes, morador do Morro da Providência e estudante. Para ele, as decisões políticas têm impacto direto sobre as oportunidades disponíveis para os jovens.
“A gente fala muito sobre o jovem como futuro, mas o jovem já está vivendo o presente. As decisões políticas de hoje afetam diretamente nossa educação, nosso trabalho e nossas oportunidades. Por isso, participar da política não pode ser só votar. A juventude precisa ser ouvida e ocupar os espaços de decisão”, afirma Pedro.
A participação dos mais jovens também estará presente nas urnas em 2026. Em todo o Brasil, mais de 3,5 milhões de eleitores com até 18 anos estão registrados para votar. No Sudeste, são mais de 1 milhão. Para adolescentes de 16 e 17 anos, assim como para maiores de 70 anos, o voto é facultativo.
Já Lucas Moscarde, morador de Bangu e técnico de enfermagem, leva para a discussão a perspectiva de quem trabalha diretamente em uma área essencial das políticas públicas: a saúde.
“Quem trabalha na saúde consegue perceber muito claramente quando uma política pública funciona e quando ela não funciona. Por trás de cada atendimento existe uma pessoa, uma família e uma realidade. Por isso, escolher nossos representantes também é pensar em quais políticas queremos para áreas essenciais como a saúde”, afirma Lucas.
As quatro experiências mostram diferentes maneiras pelas quais decisões políticas chegam aos territórios. Para quem estuda, políticas de educação interferem nas oportunidades. Para quem trabalha na saúde, decisões sobre orçamento e estrutura podem chegar diretamente ao atendimento. Para mães e trabalhadores, transporte, segurança, acesso a serviços e condições de vida também passam por decisões do poder público.
Os cargos em disputa em 2026 possuem responsabilidades diferentes. O presidente e o Congresso Nacional participam das decisões sobre leis, políticas nacionais e orçamento da União. No estado, o governador administra políticas e recursos estaduais, enquanto os deputados estaduais elaboram leis e fiscalizam o Executivo.
Muitas políticas que chegam ao cotidiano, no entanto, também dependem dos municípios. Prefeitos e vereadores não serão escolhidos neste ano as últimas eleições municipais aconteceram em 2024, mas continuam responsáveis por decisões e serviços locais dentro de suas atribuições. Por isso, identificar qual esfera de governo responde por determinada política também é parte do acompanhamento do poder público.
Participação para além das eleições
Nesse cenário, o voto é uma ferramenta fundamental, mas não representa o fim da participação cidadã.
Acompanhar propostas, fiscalizar políticas públicas, cobrar compromissos, participar de audiências e espaços de discussão e buscar informações sobre a atuação dos representantes são algumas das formas de participação que continuam depois da eleição.
Para Daniel, informação é uma das ferramentas para aproximar a população da política.
“Quando a pessoa entende como uma decisão política afeta o lugar onde ela mora, ela começa a perceber a importância de participar. Informação também é uma ferramenta de cidadania”, destaca.
Essa participação também aparece de maneiras diferentes nas experiências dos demais entrevistados. Para Pedro, ela precisa incluir a juventude não apenas durante as campanhas.
“A política não pode lembrar do jovem somente quando precisa do voto. A juventude precisa participar da construção das propostas e acompanhar o que acontece depois da eleição”, afirma.
Lucas chama atenção para a importância de ouvir quem utiliza ou trabalha diariamente nos serviços públicos.
“A população precisa ser ouvida por quem toma as decisões. Quem está no território, quem trabalha no serviço público e quem utiliza esses serviços sabe onde estão os problemas. Essa experiência precisa chegar até quem formula as políticas”, completa.
As diferentes realidades de Maré, Jacarepaguá, Providência e Bangu mostram que não existe uma única experiência política no Rio. Cada território possui características e demandas próprias, mas todos são afetados, de maneiras diferentes, pelas decisões tomadas pelos poderes públicos.
Em outubro, mais de 12 milhões de eleitores fluminenses estarão aptos a escolher seus representantes. Depois da votação, porém, políticas continuarão sendo formuladas, leis serão discutidas, orçamentos serão definidos e serviços públicos continuarão fazendo parte do cotidiano da população.
É nesse período entre uma eleição e outra que as questões levantadas pelos moradores ouvidos pela reportagem continuam presentes: quem participa das decisões, quais demandas dos territórios chegam ao poder público e como a população acompanha aqueles que foram escolhidos para representá-la.
O voto acontece em um dia. A relação entre representação política, participação popular e vida nos territórios continua depois que as urnas fecham.
** Este conteúdo foi produzido com apoio do Programa Orire de Apoio às Mídias Independentes 2026, iniciativa do Instituto Orire voltada ao fortalecimento do jornalismo independente e da produção de informação de interesse público.
