Durante décadas, o posto de mestre de bateria no Carnaval do Rio de Janeiro foi tratado como território exclusivamente masculino. Mesmo com mulheres sempre presentes nas quadras, nos ensaios e nas arquibancadas, o comando da bateria permanecia como uma fronteira silenciosa, sustentada por uma tradição que raramente era questionada. É nesse cenário que a chegada de Laísa Lima ao cargo de mestre de bateria do Arranco do Engenho de Dentro, na Série Ouro, ganha um peso histórico que vai além do feito individual e toca numa ferida antiga do carnaval carioca.
A conquista de Laísa não nasce do acaso. Sua trajetória foi construída no chão da quadra, na vivência direta com os ritmistas, na escuta atenta dos mais velhos e na prática constante. Antes de assumir o comando, ela passou por funções técnicas fundamentais, como direção de naipe, acumulando experiência, respeito e liderança natural. Esse percurso mostra que sua chegada ao posto não é um gesto simbólico vazio, mas o reconhecimento de uma formação sólida, construída de dentro para fora.
Ao assumir a bateria, Laísa não rompe apenas uma tradição: ela desmonta uma lógica de exclusão que por muito tempo foi tratada como algo “normal” dentro do carnaval. O destaque dado ao seu feito evidencia uma verdade que sempre esteve ali, mas poucas vezes teve espaço para florescer mulheres sempre tiveram capacidade técnica, sensibilidade musical e liderança para comandar uma bateria. O que faltava não era talento, era oportunidade.
Sua presença à frente dos ritmistas abre caminho e amplia horizontes. Laísa representa as que vieram antes e foram invisibilizadas, e também as meninas que hoje olham para a bateria e passam a se enxergar naquele lugar de comando. O som que ela rege não é só de surdos, caixas e tamborins é o som de uma mudança histórica ecoando na Marquês de Sapucaí.
