Doze anos são tempo suficiente para enterrar o que estava morto. Pelo menos foi o que pensei.
Saí do trabalho para encontrar a Lara. Uma garota que mergulhou a mão na merda e achou um coração — o meu. No fundo eu achava que nada do que escrevia era bom o suficiente. Talvez por isso ela tenha me tocado. Por causa dela, me inscrevi num concurso de escritores.
Cheguei no show. E encontrei o passado em pé.
E duro.
Bruno estava ali. O cara que comeu minha primeira namorada na minha frente. Agora ele estava ao lado da Lara.
Bruno me olhou.
— Te conheço de algum lugar…
Eu ri, seco.
— Lembro. Você comeu minha ex.
Ele deu um sorriso amarelo.
— Cara… da última vez que fui naquele ponto com ela, fui assaltado.
Bem, daquela vez não deu certo para ele. Mas fechei os olhos e lembrei. Doze anos atrás, no ponto de ônibus vazio: não era só um beijo no asfalto. Os dedos dele pareciam estar entre as pernas dela. As mãos dele na cintura dela. Nas coxas. Entre as pernas.
Eu vi, ou achei que vi. Não importava mais.
Eles me viram. Eu fugi. Ela, atrás de mim. E ele correu atrás dela de pau duro.
Abri os olhos. Lara percebeu.
— Ei, que cara triste é essa?
— Nada, meu bem — menti.
— Parece uma história em quadrinhos. Estive com ele num momento ruim…
Ela quis saber mais.
— Nada. Faz tempo. Passou.
Mas vê-lo ali abriu tudo outra vez.
Eu podia ter travado. Deixar o passado decidir quem eu era ali. Mas pensei: caralho… doze anos.
Doze anos atrás eu tinha congelado. Naquela noite, não. Naquela noite, eu atravessei.
O passado não decide quem eu sou hoje.
Vi um senhor vendendo flores no meio da roda punk. Perdi ele na música. Procurei. Nada. Perguntei a um catador de latinhas se o vendedor voltava.
— Volta.
Enquanto esperava, encontrei um amigo da Lara. Careca. Me lembrou o Gorbachev. A mancha na testa.
— Você é bom de dar conselhos?
— Sou.
Fiquei quieto.
— Então tá.
— Ué… Tu não vai querer meu conselho?
— Não. Eu sempre faço do meu jeito. E que se foda.
Quando o vendedor voltou, comprei um pequeno buquê. Rosas vermelhas e flores amarelas que imitavam pequenos sóis. As pétalas, macias, cheiravam a cerveja ruim do chão do show.
Lara tinha feito uma música sobre girassóis. Nunca tinha recebido flores. Eu quis ser o primeiro.
Ela não sabia. Girassol sempre me lembrava Legião Urbana — a capa do álbum O Descobrimento do Brasil. E um quadro no meu quarto.
Tentei escrever um bilhete com a caneta que roubei do caixa. O único papel que achei no bolso era um guardanapo amassado. Escrevi assim mesmo, letra trêmula, tinta falhando no relevo:
“Obrigado pela coragem. Me inscrevi no concurso de escritores por sua causa.”
Perdi o guardanapo na correria. Entreguei o buquê sem bilhete nenhum. Só fui sentir falta depois.
Dançamos, rodamos, trocávamos olhares enquanto eu caía na porrada do mosh.
Quando a poeira baixou, ela veio:
— Veio de Realengo pros cafundós — ela brincou.
— Querida, não vim de Realengo hoje. Saí do trabalho. Em Japeri.
Ela se assustou.
Lara foi cuidar de uma menina triste e bêbada, lá do show. Mão no ombro, ajeitava o cabelo. O rímel da menina estava todo cagado. Voltou. Perguntei se estava bem. “Depois eu falo.” Não ia falar. Cuidava de todos — menos de si.
Comprei uma rosa pra menina também. Deixei no colo dela e voltei. Nada a declarar.
Enquanto isso, Bruno tentava ficar por perto, querendo colar na Lara. Mas Lara dançava comigo. Roubei o nariz dela.
— Não faz isso, senão a máscara cai — ela riu.
Quando Lara foi dar atenção ao Bruno, ele passou a me olhar com aquela curiosidade torta que alguns homens têm quando não entendem o que estão vendo. Sussurrou algo no ouvido dela — não ouvi o quê.
Ela gesticulou com os dedos: dois. Sorriu torto de novo. Porque ainda era um competidor. Não era como ele pensava. Riu sem graça. Tentou me tirar do jogo.
Já fui tirado por menos.
Para ele, eu já estava fora do jogo.
Perguntei da banda dele.
— Tocava em projetos complexos — ele disse.
— Respeito.
— Desisti. Agora sou músico de bar.
Doze anos atrás, auge, meninas mais novas. Agora beirava os cinquenta. Mesmos gestos. Mesmo radar. Mais velho, mais gasto.
O pau dele era um radar de buceta. Só que o radar não pegava mais nada.
Lara era boa demais pra fome do Bruno.
Olhei pro lado. Bruno ainda estava ali. Perguntei se estava tudo bem.
“Que ironia. Agora você queria ser eu”, pensei.
Na saída, encontrei o mesmo senhor das flores. Entreguei o buquê às duas — Lara e a menina triste. Assim ninguém reparou demais.
— Obrigado, Lara. Não teria feito a inscrição sem você.
Abracei Lara. Ela sorriu aquele sorriso encantador.
O careca me olhou com uma cara de: “Ah, era isso, né? Espertalhão…”
Lara me deu um pedaço de bolo. Antes de embrulhar, enfiou uma colherada na minha boca. Abri a boca igual calopsita, sem jeito. Ela riu. Nós dois com açúcar nos dentes.
Chamei o Uber. Sou tímido demais com o que importa. Enquanto eu corria pro portão, ela gritou de longe e fez um coração com os dedos.
Passei pelo vendedor de flores na saída.
— O senhor me salvou. Se eu comer alguém hoje, vou gozar na sua flor! Obrigado!
Ele riu, constrangido.
— É, meu filho. Não deixa essas coisas passarem, não.
Entrei no Uber. Fugindo. Olhos ardendo. Suor ou quase choro.
Quando o carro já andava, percebi: esqueci o bolo. Precisei voltar. Encarar aquele rosto outra vez. Peguei o bolo. Ela riu.
No portão do show, Bruno observava as bandas, cerveja na mão, maquinando um jeito de pegar alguém.
O radar não pegava mais nada.
Na calçada, vasculhei o chão. Pisei num papel amassado. O guardanapo. Minhas próprias palavras sujas de terra. Guardei no bolso.
No caminho de volta, pensei: talvez não dê em nada. Talvez já tenha dado. Mas eu já tinha passado pelo fantasma. E isso, naquela noite, já era o suficiente.
Depois, pelo celular, ela disse que se derreteu toda. Eu já sabia — percebi pelo sorriso enquanto ia embora. Disse também que tentou me chamar enquanto eu corria. Mas eu já tinha ido.
Em casa, comi o bolo. Doce demais. Lambi os dedos. Açúcar pra não cair de vez. Tinha gosto da merda de onde Lara tinha tirado meu coração.
Com Lara, até merda virava girassol.
Mas algumas perfeições não sobrevivem à verdade.
As minhas mãos não estavam mais mortas.
Tirei o guardanapo do bolso. As palavras tinham sumido. Sentei e escrevi este texto.
