Todos os anos, milhões de pessoas vestem branco, pulam ondas e fazem pedidos na virada do ano. O ritual, herdado de tradições de matriz africana, virou símbolo do Réveillon brasileiro especialmente nas praias. Mas, ao mesmo tempo em que essas práticas são amplamente reproduzidas, as religiões que as originaram seguem sendo alvo de intolerância, violência e apagamento.
O contraste revela uma das grandes contradições do país: celebrar símbolos da cultura afro-brasileira sem reconhecer, respeitar ou proteger os povos e religiões que os mantêm vivos. O Brasil que festeja Iemanjá é, muitas vezes, o mesmo que silencia os terreiros atacados e ignora o racismo religioso.
O debate ganha força especialmente no período de fim de ano, quando manifestações culturais de matriz africana ocupam espaços públicos, ainda que seus praticantes sigam lutando por respeito e liberdade religiosa durante todo o ano.
Mais do que uma reflexão sobre a virada do calendário, o tema provoca uma pergunta necessária: é possível celebrar a tradição sem respeitar sua origem?
O Somos os Crias reafirma seu compromisso em ampliar esse debate, dar visibilidade às culturas periféricas e denunciar as contradições sociais que atravessam o cotidiano brasileiro.
